Cadernos de Campo

Por analogia com os registos de notas práticas feitos por cientistas, investigadores, geógrafos ou agricultores, a coleção “Cadernos de Campo” visa coligir elementos biográficos de pessoas que se movem em territórios de fronteira. 

Lignum

Em “Lignum” (que significa madeira, em latim) publicamos duas entrevistas realizadas entre 2019 e 2020, nas faldas da Serra do Açor, a dois artesãos de colheres de pau:

– José Pinheiro, 48 anos, nascido e criado nas Luadas;

– Filipe Cardinal, 42 anos, oriundo do Porto e residente no Barril de Alva desde 2017.

Ambos utilizam a madeira como matéria prima, mas empregam ferramentas e técnicas distintas, tendo em vista a manufatura de produtos muito diferentes, porque diversa é também a sua proveniência e o percurso que os trouxe e os fez permanecer na Beira Serra.

As conversas que transcrevemos colocam em evidência essas diferenças, registando histórias de vida nos seguintes contextos de fronteira: 

– Entre o campo e a cidade –   “À margem do bulício”

José Pinheiro é dos poucos beirões artesãos que resistiu ao êxodo rural dos últimos cinquenta anos, sendo o mais novo dos poucos que perpetuam hoje o ofício das colheres de pau no distrito de Coimbra.

No sentido inverso, Filipe Cardinal representa o movimento de jovens repovoadores, também denominados por neo-rurais, que migraram nas últimas duas décadas de grandes cidades, nacionais e estrangeiras, para zonas rurais da Região Centro. 

– Entre as artes e os ofícios – “Quem tem vagar faz colheres”

“Quem tem vagar faz colheres” é um ditado revisitado por Sílvia Lézico[1], aludindo aos pastores que faziam colheres em madeira enquanto guardavam o gado. O “artista dos campos” retirava a sua inspiração dos vastos campos e das horas passadas na solidão.

Este livro é sobre os que não trocaram o tempo pelo dinheiro, seja por não abandonarem as raízes como José Pinheiro, seja por regressarem à amplitude de horizontes como Filipe Cardinal. É sobre os que fazem coincidir num só território arte e ofício, encontrando nas colheres o seu vagar.

Ilustração de capa criada especialmente para esta edição por: Diana Giménez Figueroa


[1] Lézico, Sílvia do Carmo Marcelo (2014) – Arte pastoril: alfabeto gráfico. Disponível em: http://hdl.handle.net/10174/23073

Livro em formato digital livremente disponível aqui.